Terça, 13 de Março Meus escritos por Flávio Rezende

O triste fim da barata rubro-negra

Hoje me despeço do Rio e, ontem, voltando ao Leme, vejo uma ousadia com final infeliz.
Caminhando no calçadão de Copacabana vejo  saindo de uma tampa de esgoto, uma barata.
Perdida por ter se aventurado no espaço dos gigantes, a coitada ficou enlouquecida.
Corria para um lado e ouvia gritos de: aiiiiii uma barata.
Assustada voltava e encontrava mais gigantes. Tentou volver a sua casa, mas os gigantes estavam por todos os cantos.
Como se não bastassem os gritos e correrias, as famosas sandálias havaianas, chiques nos pés de artistas por aqui, começaram a voar, como se fossem mísseis do doidinho da Coréia em treinamento.
Como o Rio está sempre cheio de turistas, a desbaratinada perdida ouvia cucaracha, scarafaggio, cockroach, cafard e mais enlouquecida ainda, buscava escapar da confusão que causou ao ousar passear, ela também, no famoso calçadão.
Fiquei pensando, será que era um sonho antigo? Brigou com os pais? Suicídio? Mudança de residência em horário inadequado? 
Não deu tempo de perguntar a ela num papo particular, uma das havaianas acertou o alvo e a coitada e ousada barata veio a óbito.
Os gritos cessaram, nenhuma vela e tampouco fita amarela, ela ficou ali, a alma migrou para o mundo espiritual, observei para ver se ela tinha um crucifixo, um japamala hindu, quipá, quem sabe algo que identificasse alguma religião, infelizmente nada.
Decidi partir, mas algo me fez voltar. Peguei um palito de fósforo e revirei a barata. O que vi me deu a certeza que era carioca da gema. Não veio na mala de nenhum argentino, nem nasceu em São Paulo e migrou para lá. Era genuinamente carioca.
Em suas patinhas, denunciando que morreu agarradinha ao que tanto amou, estava fragmentos de uma camisa do mengão.
Suponho que queria entrar num quiosque próximo, onde equatorianos curtiam samba.
Queria entrar na bolsa de um deles e viajar ao Equador para assistir Flamengo e Emelec pela Libertadores.
Faltou orientação. Fosse na sede do mengão, podia ir com a delegação e não teria passado por isso.
Triste cantei o hino do mais querido e lamentei o desencarne da companheira de paixão.
Que situação...

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